Relatório aponta perda de competitividade do setor calçadista

19/04/2018

Documento apresenta levantamento de produção realizado com associados da Abicalçados, números de produção, exportação, importação, emprego, uso da capacidade instalada, entre outros.

Lançado recentemente, o Relatório Setorial da Indústria de Calçados, da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), aponta para dificuldades da atividade que há mais de um século tem importante papel na economia nacional. O documento apresenta, por meio de pesquisas oficiais cruzadas com um minucioso levantamento de produção realizado com associados da entidade – que respondem por mais de 70% do total produzido pelo segmento –, números de produção, exportação, importação, emprego, uso da capacidade instalada, entre outros.

Um dos dados que mais chama a atenção é a discrepância entre o crescimento da produção mundial e os números da produção nacional de calçados. No mundo, conforme dados levantados, foram produzidos 21,4 bilhões de pares, quase 4% mais do que em 2016. Analistas ressaltam que o crescimento foi, basicamente, impulsionando pelo consumo interno nos países. Em 2017, foram consumidos 19,6 bilhões de pares, 3% mais do que no ano anterior. Já no Brasil, que produziu 908,9 milhões de pares no período, houve um incremento de apenas 1%, na produção, ao passo que o consumo chegou a 805,5 milhões de pares, somente 1,2% maior do que em 2016, quando já havia despencado mais de 2%.

Segundo o presidente-executivo da Abicalçados, Heitor Klein, a indústria calçadista brasileira, assim como a de manufaturados em geral, está com dificuldades devido aos problemas estruturais já, exaustivamente, citados e que formam o caldo do “Custo Brasil”, obstáculos que somados à retração na demanda doméstica vem causando grandes danos ao segmento. “O que salvou a indústria de um resultado pior em 2017 foram as exportações, que aumentaram 1,2% em volume e 9,3% em receita gerada (127,1 milhões de pares por US$ 1,09 bilhão)”, avalia.

Por outro lado, o executivo ressalta que a discrepância entre o crescimento do volume e do valor gerado pelos embarques é preocupante, pois denota o aumento de preços no exterior, explicado pela valorização da moeda brasileira sobre o dólar. “O câmbio, muitas vezes, é um compensador das nossas fraquezas estruturais. Ele compensa o problema que é se produzir e ser competitivo com uma das maiores cargas tributárias do planeta, além de todos os problemas estruturais que enfrentamos no dia a dia, como uma logística precária, os custos com mão de obra, entre outros”, comenta Klein. Segundo ele, no ano passado, os principais destinos do calçado brasileiro foram Estados Unidos, Argentina, Paraguai e Bolívia. “Com o preço mais elevado, em função da defasagem cambial, estamos perdendo espaço nos Estados Unidos, sendo que no primeiro trimestre desde ano – dado que não consta no relatório -, os norte-americanos já foram ultrapassados pela Argentina”.

Segmentação

No documento também é listada a produção por segmento e tipo de material, em que, de longe, figuram no topo do ranking os calçados de plástico/borracha, chinelos, com 46% do total dos 908,9 milhões de pares produzidos. Os chinelos despontam, ainda, nas exportações, representando 52,5% do total embarcado. “O calçado de couro, que possui um valor agregado maior e que, portanto, traz mais divisas para o Brasil, vem perdendo força a cada ano. Em 2017, apenas 13,7% dos produtos embarcados eram desse tipo de material”, avalia Klein.

Capacidade instalada

Em 2017, o nível de utilização da capacidade instalada da indústria (NUCI) ficou em 75%. Apesar de uma leve alta ante 2016 (72,1%), o número ainda está bem abaixo da média história do setor (81,1%, medido entre 2000 e 2017). Segundo Klein, o dado aponta que, apesar de uma leve retomada conquistada no ano passado, o setor ainda está longe de performances anteriores, especialmente aquela antes da crise de 2008/2009.

Emprego

As dificuldades do ano passado refletiram no nível de emprego do setor, quando pela primeira vez foi rompida, para baixo, a barreira de 300 mil postos gerados na atividade. Naquele ano, conforme o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), as mais de 7 mil empresas do setor terminaram dezembro gerando 279 mil postos, 2,2% menos do que em 2016.

O Relatório Setorial da Indústria de Calçados é um documento completo, com 58 páginas de dados estatísticos detalhados e análises de especialistas no assunto, inclusive com projeções de curto e médio prazos. O material pode ser baixado, gratuitamente, no link http://www.sindifranca.org.br/download.html?file=uploads/downloads/download_201804190840248246840.pdf